De Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, chega uma carta triste sobre uma família marcada por ciúmes, rejeição e uma disputa que ameaça destruir um casamento
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Uma
história que atravessa uma fronteira — e chega ao coração
Desta vez, o Correio Sentimental atravessa o Brasil até o extremo sul do país, mais precisamente até Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul. A cidade mantém uma relação singular com Rivera, no Uruguai, e é separada do território brasileiro apenas por uma linha fronteiriça que, para quem vive ali, quase desaparece no cotidiano.
Foi de lá que recebemos uma carta muito comovente de uma jovem que passou anos vivendo à sombra de uma família que nunca conseguiu chamar de sua. Ela conta como o relacionamento com a mãe adotiva e a convivência com a irmã transformaram sua vida em uma sucessão de humilhações, ressentimentos e sofrimentos silenciosos.
Agora ela, porém, acredita ter encontrado uma saída. Está noiva, tem as alianças no dedo, o enxoval preparado e espera apenas uma mudança na vida profissional do futuro marido para deixar aquela casa e começar uma nova história.
Contudo, quando pensa que está perto da liberdade, algo inesperado acontece: sua própria mãe começa a se interessar pelo homem de quem gosta.
Rosângela, então, se vê diante de uma pergunta dolorosa: "será que conseguirei construir a própria felicidade sem levar para dentro do casamento as feridas de tantos anos?", assim ela pensa.
Carta da leitora Rosângela
Prezado Sr. Editor do Correio Sentimental
Escrevo esta carta com vergonha, angústia e, principalmente, com muito medo. Tenho 29 anos e sinto que estou chegando ao limite de tudo o que consegui suportar durante tantos anos. Minha família é complicada demais para eu conseguir explicar em poucas linhas, mas vou tentar.
Fui criada por Aurora, uma mulher que ficou viúva há dez anos. Ela nunca precisou trabalhar e sempre viveu muito bem com a pensão deixada pelo meu pai. Depois que ele morreu, passou a se relacionar com homens mais jovens. Minha irmã, Idália, tem 36 anos e é filha biológica dela. Eu sou filha do meu pai, de um relacionamento anterior, e fui criada por Aurora depois que ele se casou com ela. Talvez seja justamente aí que esteja a raiz de tudo. Nunca me senti verdadeiramente filha naquela casa.
Idália sempre foi a preferida. Formada em Pedagogia, bonita, independente e admirada pela minha mãe. Eu, ao contrário, sou auxiliar de enfermagem. Trabalho, ajudo nas despesas e passei a vida inteira ouvindo, de uma maneira ou de outra, que eu era menos. Meu pai era quem me protegia. Depois que ele morreu, fiquei praticamente sozinha.
Aurora continuou vivendo como sempre viveu, comprando roupas caras, joias, viajando e namorando. Eu, que sempre precisei lutar pelas minhas coisas, fui aprendia engolir as humilhações.
Até que conheci Otávio. Ele tem 34 anos e é meu noivo. Estamos usando alianças, nosso enxoval está quase pronto e esperamos apenas a promoção dele a tenente da Brigada Militar do Rio Grande do Sul para finalmente podermos organizar nossa mudança e começar nossa vida juntos.
Para mim, esse casamento representa muito mais do que amor. Representa liberdade. Só que existe um problema: minha mãe está interessada em meu noivo.
No começo, achei que fosse impressão minha. Depois comecei a perceber olhares, comentários e situações que me deixavam constrangida. Hoje já não tenho mais dúvidas.
Aurora vive tentando se aproximar de Otávio, e o pior é que ela não faz isso escondido.
Na minha frente, chega a dizer coisas que me destroem. Uma vez perguntou a ele por que não havia escolhido Idália, insinuando que minha irmã seria uma mulher melhor para ele.
Imagine o que é ouvir isso da própria mãe quando você está usando uma aliança de noivado. Também imagine voltar para o quarto depois e perguntar a si mesma se existe alguma coisa errada com você.
Eu amo Otávio, mas estou cansada de viver com medo: medo de minha mãe; medo de perder meu noivo; medo de continuar naquela casa.
Medo de descobrir que, depois de tantos anos sendo humilhada, talvez eu tenha escolhido justamente um homem que pode acabar fazendo parte dessa mesma história.
Ao mesmo tempo, existe uma coisa que me revolta: Aurora sempre teve tudo. Nunca precisou lutar por dinheiro, jamais precisou trabalhar, precisou escolher entre comprar alguma coisa para si ou pagar uma conta. Eu passei a vida trabalhando e sendo tratada como uma estranha.
Agora que finalmente encontrei alguém que amo e que pode me ajudar a construir uma vida própria, ela parece querer tirar isso de mim.
Não sei se devo enfrentar minha mãe, sair de casa antes do casamento ou simplesmente ignorar suas provocações. Também não sei até que ponto devo confiar em Otávio.
Às vezes penso que deveria romper tudo antes que seja tarde. Outras vezes penso que estaria permitindo que minha mãe finalmente vencesse. Estou cansada de viver como se precisasse pedir licença para ser feliz.
Sr. Redator, o que o senhor faria no meu lugar? Como posso superar tantos anos de humilhação e conseguir, finalmente, construir minha própria vida sem carregar para dentro do meu casamento os problemas da família que me criou?
Rosângela — Santana do Livramento (RS).
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Resposta do Editor de Redação
Cara Rosângela
Sua carta não fala apenas de uma mãe que estaria interessada no noivo da filha. Ela fala de algo muito mais profundo: uma mulher que passou tantos anos sendo diminuída que começou a duvidar do próprio direito de escolher a felicidade.
É isso que precisa mudar primeiro. Evite competir com Aurora pelas atenções do noivo. Também não é necessário disputar sua mãe com Idália. Saia dessa disputa
Há uma pergunta que considero fundamental: Otávio está se comportando como um homem comprometido com você ou está permitindo que sua mãe ultrapasse limites que deveriam ser inegociáveis? Converse com ele, em particular, sem acusações e sem transformar a conversa numa competição entre três pessoas. Conte exatamente o que acontece e pergunte a ele, com serenidade, quais são os limites que pretende estabelecer.
Se ele realmente deseja construir uma vida com você, precisará demonstrar isso também por meio de atitudes, e quanto a Aurora, não tente mudá-la. Talvez, você tenha passado anos a espera de que ela, finalmente, pudesse reconhecer seu valor. Pode ser que o reconhecimento nunca venha.
É uma das coisas mais difíceis de aceitar na vida: às
vezes, precisamos parar de esperar de determinadas pessoas aquilo que elas nunca
estiveram dispostas a oferecer.
Você trabalha, construiu sua profissão, encontrou alguém que
ama e planeja uma nova vida. Não permita que os comportamentos de sua
mãe determinem quem você será daqui para frente.
E há outra coisa importante: não se case apenas para fugir daquela casa. Case-se porque você e Otávio estão preparados para construir uma vida juntos. A liberdade que você procura não deve depender apenas de uma aliança no dedo ou da promoção dele. Ela começa quando você deixa de acreditar que precisa da autorização de Aurora para ser feliz.
Se Otávio for realmente o homem que você acredita ser, vocês enfrentarão juntos os limites a serem estabelecidos, e, se ele não for, é melhor descobrir isso antes do casamento.
Você não perdeu o seu pai apenas quando ele morreu. Pelo que
conta, perdeu também a sensação de proteção que tinha ao lado dele. Talvez por
isso esteja tão desesperada para preservar Otávio.
Além disso, seu futuro marido não ocupará o lugar do seu pai. Ele deve ser seu companheiro, e você deve ser a dona da própria vida. Não permita que a história da sua família determine a história da família que você pretende construir.
Nosso passado explica algumas de nossas feridas; não precisa, no entanto, ditar nosso futuro.
— O Editor de redação. (DS)
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