Nasci já devendo, segundo uma
história que não assinei, não testemunhei e da qual sequer poderia ter sido
cúmplice. Antes mesmo de aprender a falar, já me haviam transformado em
pecador. E, desde então, sigo tentando
entender que negócio é esse de pagar por uma dívida que não contraí.
Mal saído do útero e,
ainda por cima, sob a pecha de pagão e pecador, sem poder protestar. Primeiro,
submeteram-me a ouvir um blá-blá-blá absurdo, estranho, extraído de um livro de
capa preta e volumoso. Um sujeito paramentado desenhou uma cruz com o dedo
molhado no óleo, fez outra em meu peito com água e finalizou molhando-me a
cabeça, resmungando palavras ininteligíveis referentes a uma tal de Santíssima
Trindade, em meio a um fogaréu de velas. É claro que eu não sabia falar! Então chorei,
e não me arrependo! Não resolveu nada, mas de uma coisa pode estar certo(a):
fiz um escarcéu danado. Ah! Que incomodei, incomodei! E como...
A dívida que muitos
acreditam ter herdado de Adão é como um paciente pagar a consulta médica antes
de adoecer.
Eu? Pecador?! Como
pode alguém que acabou de sair de um lugar de onde sobreviveu como um girino
ser tachado de culpado por causa de uma mordida numa fruta oferecida a um
ancestral por um réptil que, até hoje, ninguém sabe se andava e que idioma
falava?!
Sobre o que houve no
pomar proibido, teólogos tentam explicar e convencer que o débito universal foi
herdado daquele cara que cuidava de um jardim paradisíaco, mas que depois foi
despedido por causa de uma fruta. Dizem eles que tudo não passa de sentido
figurado... “Sentido figurado”? Às vezes, em minhas elucubrações, desconfio
desse tal “sentido figurado”. Não tenho prova, mas é bem capaz que Adão levou
um pé no traseiro porque desvirginou a mulher antes de pedi-la em casamento!
Sei que, mais cedo ou mais tarde, morrerei, como qualquer pessoa deste planeta. Não tenho certeza se, após o término das minhas atividades biológicas, terei a oportunidade de dizer a mim mesmo: “Errei, e aprendi com meus erros; não virei um santo, mas posso jurar que tentei acertar mais vezes do que persistir no erro.” Também juro que jamais desrespeitei a quem quer que seja, desonrei pai e mãe, senti ódio, traí, matei, roubei alguém, espalhei calúnias, cometi injúrias, quis me vingar, pensei em trair minha pátria. De toda forma, porém, sairei de cena com dignidade, livre de qualquer complexo de culpa, nada tendo a ver com um cara que morou num paraíso e que, por causa de uma fruta, deu ruim pra ele por cair na lábia de uma cobra que falava e andava — e que, segundo a história, teve como castigo comer pó. Vou morrer e, até hoje, nunca ouvi falar de cobra que come pó!
Súbita paixão desenfreada
além da janela
Três amigas inseparáveis, desde os tempos de juventude, da
faculdade, fazia anos que não se encontravam. Cansadas de só conversarem pelo
chat — e quando isso era realmente possível, já que viviam em cidades distantes
— resolveram, pois, marcar um encontro para matar a saudade, relembrarem os velhos
tempos de solteiras.
— Meninas, depois de tantos anos, né?! E vocês duas?
Casaram, tiveram filhos?... Eu fiquei solteira. Mas me digam uma coisa: vocês
acham que eu ainda posso encontrar o homem certo?
— Claro! — responderam as amigas. — Nunca é tarde!
Ela suspirou e disse:
— Pois é... Há pouco tempo, encontrei um ser másculo,
grande, musculoso, imponente, como eu sempre imaginei que um dia encontraria...
Por alguns momentos cheguei a perder o rumo quando ele me deu aquela encarada
através de uma enorme janela. Calmamente, foi se aproximando, encostou o rosto no vidro,
como que sutilmente me sugerisse que eu fizesse a mesma coisa para juntarmos os
rostos e...
Meninas, aí é que eu estremeci inteira! Meu coração disparou e, de pernas
bambas, aquilo mexeu até com as entranhas do meu corpo, de minha alma. Enfim,
fui tomada de incontrolável desejo de trespassar aquela janelona de vidro espesso...
As duas amigas, curiosíssimas, perguntaram:
— E então? Diga logo quem era esse Adônis, essa figura
máscula e bombada, esse deus grego? E onde o encontrou?
Ela deu um suspiro e sussurrante respondeu:
— O costas prateadas do cativeiro dos gorilas do zoo da cidade... (DS)
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