Nossa gente notável apresenta: Memória, literatura e a paixão por São Caetano do Sul

A seção "Nossa Gente Notável" abre um novo espaço para homenagear mais um grande nome que ajuda a preservar e enriquecer a história da cultura do nosso querido município.

Dando sequência à nossa série de entrevistas, destacamos o Marcos Eduardo Massolini, que tem mais de vinte e quatro anos de dedicação à pesquisa e duas décadas de experiência como jornalista freelancer. Especialista em marketing, estratégia de conteúdo, comportamento do consumo, música, histórias em quadrinhos, arte e cultura brasileiras, Massolini atuou em veículos e projetos ligados a importantes editoras e publicações, entre eles Veja São Paulo, International Magazine, Diário do Grande ABC, ABC Repórter, o site Colecionadores de HQs, a Revista Raízes, da Fundação Pró-Memória, além de manter o blog Almanaque do Malu.

Quem é Marcos Massolini




Nascido em Santo André, ele construiu toda sua trajetória afetiva e de vida em São Caetano. Pesquisador da memória cultural, colecionador e escritor, ele se dedica a resgatar personagens, lugares, histórias e manifestações culturais que poderiam se perder com o tempo.

O pertencimento a São Caetano

Notícias & Novidades — Marcos, você nasceu em Santo André, mas sempre deixou claro que se considera sancaetanense. O que significa, para você, dizer “eu sou daqui”?

Marcos Massolini — Nasci em Santo André por um mero desvio de percurso: minha mãe lecionava na rede estadual por lá, e o parto acabou acontecendo na Beneficência Portuguesa andreense. Toda a minha vida, minha formação e minha afetividade, porém, pertencem a São Caetano. Dizer “sou daqui” é reconhecer onde finquei minhas raízes e construí minha história.

As raízes

N&N — Você chegou a dizer, numa entrevista, que sempre morou na cidade e praticamente no mesmo bairro. Afinal, o que São Caetano tem que fez você criar raízes tão profundas por aqui?

Massolini — Sempre vivi nesta mesma região, perto da Rua Capibaribe, e mudei de endereço pouquíssimas vezes. Criar raízes aqui é algo natural para mim, pois minha história se confunde com a da própria cidade. Meu pai veio para cá nos anos 1940, trabalhou durante décadas na General Motors como profissional de engenharia e até jogou como goleiro no futebol varzeano. Cresci nesse ambiente acolhedor, onde os vizinhos se conhecem pelo nome e mantêm o hábito de tomar um café juntos na calçada. É um sentimento de comunidade e conexão que não se encontra em qualquer parte.

Massolini, o menino

N&N — Quando criança e adolescente, que tipo de menino era o Marcos Massolini? Já existia naquele garoto essa curiosidade por histórias, revistas, imagens, personagens e coisas antigas?

Massolini —  Extremamente ativo e arteiro, vivia na rua, jogava bola, participava das festas juninas e ajudava a pintar os tapetes de Corpus Christi no bairro Barcelona. Minha paixão pela leitura, porém, veio muito cedo, por influência direta do meu pai, que era um assíduo frequentador de bancas de jornal. Ele trazia enciclopédias, fascículos e coleções para casa. Aos 7 ou 8 anos, eu já devorava esse material e vasculhava seu acervo. Mais tarde, nos anos 1970, comecei a formar minha coleção, inicialmente com histórias em quadrinhos da Disney, depois com os heróis da Marvel e da DC e também histórias europeias. Aquela curiosidade de infância abriu as portas para o pesquisador e colecionador que me tornei.

Escrever para preservar

N&N — Foi então que o jornalismo, a história e sua paixão por revistas se uniram. Quando você percebeu que escrever representaria não apenas uma profissão, mas também uma forma de preservar o que estava desaparecendo?

Massolini — Isso se consolidou no final dos meus estudos, quando entrei no DEDOC, o Departamento de Documentação da Editora Abril, onde atuei de 1989 a 2002. Comecei na pesquisa iconográfica e fonográfica e, com o tempo, passei para a pesquisa de texto. Tive a oportunidade de prestar consultoria e produzir pesquisas de pauta para grandes atrações da TV brasileira, como os programas do Jô Soares, o Programa Livre, do Serginho Groisman, o Aqui Agora, além de produções na Band e trabalhos para agências de publicidade e editoras. Trata-se de uma imersão gigantesca em acervos e na memória cultural do país.

Aprendizado em jornalismo

N&N — Você trabalhou para veículos e empresas importantes, entre eles a Editora Abril e a Folha de São Paulo. Que ensinamentos a experiência profissional no jornalismo deixou para o escritor e pesquisador que ele se tornaria?

Massolini —  Minha experiência na Editora Abril foi muito rica e exerceu um papel fundamental em minha formação. Minha passagem por diferentes projetos, além do jornalismo e do trabalho como freelancer, ajudou a estruturar a bagagem que levaria para a pesquisa autônoma. Aprendi a investigar, a organizar informações, a conferir dados e, acima de tudo, a compreender que preservá-la exige método, curiosidade e responsabilidade.

O objeto especial

N&N — Você se define também como colecionador de quadrinhos, revistas, discos, livros e até “badulaques culturais”. Há algum objeto em seu acervo com uma história especial para você?

Massolini —  A primeira edição da revista Mônica n.º 1, da Editora Abril, tem uma história inusitada. Eu a resgatei literalmente do lixo durante uma mudança de prédio na empresa, pouco antes de o material ser descartado. Guardo essa relíquia até hoje. Entre os tesouros afetivos, destaca-se a coleção da revista O Tico-Tico e as edições históricas da Ebal, que pertenceram ao meu pai. Além de uma amplo repertório dos Rolling Stones, sinto um enorme carinho pelos LPs do catálogo da lendária gravadora Marcus Pereira, um projeto de pesquisa no qual trabalhei e que me permitiu reunir raridades incríveis, como o álbum de estreia de Cartola.

Joselito Mattos: cinco anos contra o esquecimento

N&N — Chegamos a Joselito Mattos. Você passou cinco anos pesquisando a vida e a obra desse artista. Como nasceu essa obsessão — no melhor sentido da palavra — por resgatar Joselito?

Massolini —  Eu falei de um artista que pouca gente conhecia e, por isso, ele permaneceu restrito a um nicho. Por sorte, encontrei um editor que acreditou muito nesse trabalho, Gonçalo Júnior, que também se preocupa em resgatar histórias esquecidas, recuperar personagens e revelar o que ainda não contaram. Nós já nos conhecíamos e encontrei também o interesse da USP e de outros intelectuais. Para mim, isso representou uma espécie de coroação do meu trabalho. Essa coroação veio com o Prêmio HQMIX, que ganhei em 2023 pela pesquisa. Embora o livro não tenha me trazido dinheiro, me trouxe prestígio e, principalmente, a sensação de que aquele registro poderia permanecer como parte da história. Criei o Almanaque do Malú em 2009 com a intenção de reunir todas as minhas paixões: pesquisas, curiosidades e interesses. No início, publiquei muitas matérias, mas, à medida que as atividades aumentaram, passei a entrar menos no blog. Tenho um carinho especial por ele e não pretendo fechá-lo. Espero que ele continue.

Marcos e a memória de São Caetano

A Concha Acústica de São Caetano do Sul, obra demolida em 2004, um importante marco cultural e arquitetônico da cidade, que ficava na Praça Primeiro de Maio (atual Praça dos Estudantes), na Avenida Goiás, com uma história marcada por shows e manifestações culturais, frequentada por Massolini nos tempo de sua juventude.


N&N — E existe também o grupo “São Caetano Inesquecível”. Por que você sente essa dever de registrar a cidade?... Antes que determinadas lembranças desapareçam?

Massolini — uma história muitas vezes atropelada pelo chamado "progresso". A preservação do patrimônio histórico não é importante para a gestão local. O lugar se tornou um espaço vivo, onde pessoas de todas as idades compartilham lembranças, desde antigos comércios até personagens populares, resgatando fatos e detalhes esquecidos. Administrar e moderar esse acervo colaborativo dá trabalho diário, mas vale cada segundo. Aprecio muito e estou sempre aprendendo sobre o nosso próprio povo.

Um lugar de memória

N&N — Qual lugar de São Caetano desperta em você uma memória imediata?

Massolini — Recantos antigos e ruas arborizadas guardam o eco de um tempo em que a cidade parecia caber inteira em um abraço de bairro. São lugares onde a arquitetura mudou, mas a alma continua viva na lembrança dos quintais, das esquinas e do ritmo de um povo que aprendeu a enraizar sua história no asfalto e na poesia do cotidiano.

Cinco coisas para preservar

N&N — Se você pudesse preservar para sempre apenas cinco coisas da memória cultural dessa cidade que tanto ama, o que escolheria?

Massolini — Escolheria a voz dos nossos operários e imigrantes, que construíram a identidade desta terra; a ousadia dos artistas e criadores que sonharam no meio da fumaça das fábricas, os velhos casarões e marcos arquitetônicos que resistem ao tempo, a literatura e a oralidade que contam nossa história, e, por fim, o espírito comunitário, a capacidade singular de nossa gente de acolher o outro e transformar a memória coletiva em patrimônio vivo.

No decorrer do tempo, o escritor...

Marcos Massolini, escritor, pesquisador e jornalista, apresenta duas de suas obras: "As Raízes do Rock" e "Estilhaços no Desjejum", revelando a diversidade de sua produção literária e sua paixão pela música, pela história e pela cultura. Foto: Arquivo pessoal de Massolini.


N&N — Você começou publicando Borboletas Abissais, depois vieram Aura de Heróis, Abílio e o Espelho, Quase Oásis e, agora, Estilhaços no Desjejum. O que mudou no escritor Marcos Massolini ao longo desses anos?

Massolini — Com o tempo, o olhar se aprimora e os excessos são eliminados. Se antes buscava urgência e impacto na descoberta, hoje escrevo com mais cautela, buscando o essencial nas pequenas rachaduras do cotidiano. O escritor maturou porque compreendeu que a literatura não precisa explicar tudo; basta resgatar a humanidade que insistimos em perder pelo caminho.

Em meio ao mundo contemporâneo

N&N — Seu novo livro nasceu em um período marcado por guerras, medo, polarização, violência e transformações profundas. Como o mundo contemporâneo interfere na sua escrita?

Massolini — Ele entra como um ruído ensurdecedor que exige trégua. Não dá para ignorar o caos lá fora, a violência e a polarização que fragmentam o tecido social. Minha escrita acaba funcionando como um ato de resistência e um refúgio, uma tentativa desesperada e necessária de colar os cacos desse mundo fraturado por meio da palavra poética.

Humor e lirismo

N&N — Você consegue escrever sobre assuntos pesados sem abandonar o lirismo e o humor. De onde vem essa necessidade de encontrar alguma luz mesmo quando o assunto é sombrio?

Massolini — Tanto o humor quanto o lirismo não fogem da realidade; pelo contrário, constituem formas de enfrentá-la. A vida é trágica e complexa, mas é justamente nas brechas do absurdo que o riso e a beleza nos salvam do sufoco. Se perdemos o poder de rir de nossas desgraças ou de encontrar poesia na dor, a existência perde o sentido, tornando-se uma questão de saúde mental.

Texto e imagem

Massolini na Feira Literária de Ribeirão Pires, onde fez um painel sobre biografia com o Gonçalo Junior e o Tom Cardoso, em outubro 2026.


N&N — Você também participou da concepção gráfica de "Estilhaços no Desjejum". Em sua opinião, o texto e a arte correspondem a linguagens separadas ou participam da mesma criação?

Massolini — Para mim, elas nascem da mesma seiva. Ele sugere texturas, silêncios e formas que a imagem materializa e, sobretudo, desperta a curiosidade do leitor antes mesmo que ele leia a primeira linha. Um livro é um corpo inteiro; a capa, o projeto gráfico e as palavras dialogam o tempo todo para criar uma experiência sensorial completa.

O homem por trás do pesquisador

N&N — Marcos Massolini pesquisa a memória dos outros há décadas. Mas quem é ele? Por que ninguém o pesquisou?!

Massolini — É aquele que habita o silêncio, o observador solitário que recolhe fragmentos do mundo não para expô-los, mas para entendê-los dentro de si. Existe um território íntimo, feito de dúvidas, afetos guardados e inquietações silenciosas, que nenhuma pesquisa alcança, porque pertence apenas ao mistério de ser quem sou quando fecho a porta e fico só com meus livros.

A curiosidade que permanece

N&N — E o que ainda desperta sua curiosidade? Há alguma história que você ainda não conseguiu contar e que não sai da sua cabeça?

Massolini — Há um mistério nas pequenas existências anônimas. Elas acabam varridas para debaixo do tapete pelo grande curso da história. Sempre há uma história sussurrada nas entrelinhas do tempo, um segredo guardado na lembrança de alguém comum, que continua me chamando e pedindo passagem para ganhar forma no papel.

Quais itens não guardar

Entre livros, memórias e afetos, Marcos Massolini revela também o poeta que habita o silêncio — um observador solitário que recolhe fragmentos do mundo para compreendê-los dentro de si. Foto: Arquivo pessoal de Marcos Massolini.


N&N — Você coleciona objetos, histórias e memórias. Mas existe alguma coisa que você deliberadamente decidiu não guardar?

Massolini — Sim. Aprendi com o tempo a não guardar o ressentimento e as mágoas. O peso do que nos machuca, e só atrapalha a jornada! Prefiro descartar o rancor e abrir espaço para o que realmente importa, pois a memória deve servir como um lugar de acolhimento e resgate, e não como um depósito de dores do passado.

Uma conversa impossível

N&N — Se pudesse conversar por uma hora com uma pessoa que já se foi, quem escolheria e o que perguntaria?

Massolini — Escolheria conversar com os meus antepassados mais remotos, aqueles que trouxeram na bagagem a coragem de cruzar o oceano sem saber o que encontrariam. Em vez de fazer perguntas complexas, eu pedia um pouco do silêncio e da força deles para entender como mantiveram a esperança acesa no meio da incerteza absoluta.

A história que não pode desaparecer

N&N — Depois de tudo o que você já pesquisou, escreveu e preservou, qual história você gostaria de contar? 

Massolini —  A história de que nenhuma vida vale menos! Cada pessoa que passou por esta terra deixou uma marca única, um traço invisível que compõe o grande painel da nossa humanidade. Quero que nunca se esqueçam de que somos feitos de afetos, de lutas diárias e de uma beleza frágil, que merece respeito e lembrança.

Laços de amizade com Mastrotti

Marcos Massolini e Mário Mastrotti: uma amizade que aproxima pessoas dedicadas à arte, à literatura e à preservação da memória cultural. Um encontro de afinidades que fortalece os laços entre aqueles que reconhecem na cultura um patrimônio a ser compartilhado e preservado. Foto: Arquivo pessoal.


N&N — Mário Mastrotti, por sua vez, nos aproximou e agora também faz parte da história desta entrevista. E o que essa amizade e convivência com pessoas que dedicaram suas vidas à cultura representam para você?

Massolini — Isso mostra A cultura não se resume a um ofício, mas é uma forma de vivência e de criação de laços verdadeiros. Conviver com Mário e outros guardiões da memória é ter abrigo no meio da tempestade e saber que há quem compreenda a urgência de preservar o passado para que o futuro ainda faça sentido.

Ainda há algo a ser feito?

N&N — Para encerrar, uma pergunta simples, mas talvez difícil: quando você olha para tudo o que já escreveu, pesquisou e preservou, o que ainda falta fazer?

Massolini — Falta viver o bastante para capturar a próxima centelha de poesia que teima em nascer nas manhãs comuns. Falta preencher as lacunas do esquecimento com afeto, escrita e escuta, pois, enquanto houver histórias esperando para contar, minha jornada ainda estará apenas no início.

Nota do Editor: A memória como gesto de afeto

Amizade, cultura e boas conversas no encontro semanal de amigos no Bar do Leo, no bairro Santo Antônio, em São Caetano do Sul. A reunião das terças-feiras é uma oportunidade de compartilhar experiências, trocar ideias e celebrar os laços de convivência. Na foto, Marcos Massolini e amigos, reunidos em um ambiente de descontração e companheirismo. Foto: Arquivo pessoal.


Ao percorrer as 21 respostas de Marcos Massolini, fica evidente que o trabalho de resgate cultural transcende o âmbito acadêmico e técnico. Acima de tudo, representa uma forma de preservar vínculos, histórias e identidades.

Em tempos nos quais o efêmero predomina sobre a permanência, é gratificante encontrar alguém tão dedicado à pesquisa e à memória de São Caetano. A trajetória de Massolini nos lembra que um lugar não é somente  feito de concreto, asfalto e estatísticas, mas também da sensibilidade de seu povo, das histórias dos antigos moradores, dos personagens esquecidos, dos lugares que desapareceram e das lembranças que continuam vivas. Cada pesquisa, cada acervo e cada palavra dedicados a resgatar personagens e acontecimentos contribuem para manter viva a alma de uma área.

Gostaríamos de expressar a nossa gratidão a Marcos Massolini pela amabilidade com que nos recebeu para esta conversa e pela chance de descobrir um pouco mais do homem que há por trás do jornalista, do escritor e do pesquisador. Agradecemos também ao querido amigo Mário Mastrotti, cujo vínculo afetivo tornou possível esse encontro, que aproximou duas pessoas que, cada uma à sua maneira, compartilham o mesmo compromisso de não permitir a perda da memória. (DS)

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